quarta-feira, 16 de novembro de 2011

INDIGNAÇÃO

Nota: este texto nasceu da minha indignação frente aos acontecimentos que tiveram por palco o campus da USP - Butantã, e foi originalmente publicado no Facebook por Egle Guiral, quinta, 10 de Novembro de 2011 às 18:09.
 
 
Por ter visto tanta parcialidade e manipulação da opinião pública resolvi escrever demonstrando minha indignação e apreensão frente ao posicionamento da absoluta maioria da imprensa no que se refere a série de fatos ocorridos nesta semana no campus da USP do Butantã.
O que se viu no dia em que a TROPA DE CHOQUE invadiu a reitoria da Universidade ocupada por 72 estudantes desarmados de armas letais, armados apenas de ideias e ideais que toda uma geração pensante do pós ditadura tentou fazer brotar nestas jovens mentes, foi algo no mínimo surpreendente, chocante e amedrontador.
Analisando friamente – foram destacados 450 homens (pareciam muito mais), armados com armas pesadas, guarnecidos de inúmeras viaturas, escudos, bombas, cacetetes e pasmem, helicópteros, que sobrevoavam o campus com holofotes, buscando ninguém sabe o que... A missão destes homens era retirar 72 jovens de um prédio, repito jovens desarmados, que foram tratados como criminosos perigosos, e que, contudo, não posso ver como eles estariam colocando em risco a vida de quem quer que fosse e porque mereciam ser tratados desta maneira truculenta, violenta e absurda!!!!
A imprensa foi vergonhosamente tendenciosa no trato desta questão, não dando voz aos alunos e professores envolvidos e alegando que tudo que os alunos queriam era um território livre para fazer uso de maconha, taxando os alunos da FFLCH (célula pensante da USP) de maconheiros e filhinhos de papai.
Ora esta afirmação falando claramente, não tem pé nem cabeça, ninguém pediu isso, isso foi o que a imprensa implantou e disseminou como verdade, e absurdo dos absurdos, ninguém contestou, ninguém quis saber da fala do outro lado, repetiu tudo direitinho como ouviu tal qual um bando de papagaios propagando esta ideia louca...
Parabéns, o PSDB com sua política educacional longeva no Estado de São Paulo, conseguiu, alcançou seu intento, a massa populacional não sabe mais pensar; opinar criticamente então? Nem sabem o que significa, fica bem fácil manipular um povo assim...
E o papel da imprensa como fica? Ela se posicionou de um lado, defendeu-o ferrenhamente não escutou o outro lado.
Por que não divulgou que no dia da invasão, havia um destacamento de policiais atuando no CRUSP (alojamento dentro do campus destinado a moradia de estudantes pobres que não podem arcar com um aluguel para estudar fora de sua cidade), onde estudantes dormiam (não tinham invadido nada...), inclusive jovens mães estudantes que moram com filhos crianças, e estes policiais sem nenhuma lógica, lançaram bombas de efeito moral e de gás lacrimogênio dentro deste prédio? Qual era o intuito senão amedrontar e aterrorizar? Por que a imprensa não divulga estas imagens gravadas pelos estudantes, que como disse são pobres, então a gravação é ruim porque os celulares onde gravaram os fatos são de marcas duvidosas e baratas?
Porque a imprensa não divulga que o que realmente os alunos não querem é a presença de uma PM despreparada, que não protege, que é truculenta e preconceituosa que humilha e provoca alunos pobres, negros e homossexuais?
É certo que os estudantes deveriam ter cumprido a ordem judicial que determinava a desocupação do prédio da reitoria, isso não questiono. Porém não houve uma enorme desproporcionalidade entre o ato e ação para promover a retirada? Como podem achar normal usar tantos policiais fortemente armados, com uso inclusive de helicópteros e cavalaria (nossa: cavalaria, estudantes... lembrei do Erasmo Dias, porque será? Que o diabo o guarde a sete chaves!)? Porque formar um corredor polonês na saída da faculdade? Porque conduzir estudantes desarmados como se fossem criminosos, derrubá-los com o rosto no chão?
Para mim isso é, no mínimo, desnecessário, ou como diria a âncora global: ¨que deselegante!¨.
Não seria normal que esta questão que era estudantil fosse tratada de forma pedagógica pelo exmo. sr. Reitor da USP? Ou será que lhe falta esta capacidade? Será por isso que os estudantes e grande parte do corpo docente quer sua saída? Porque será que ele não sai? Será que é por sua ligação com a cúpula do PSDB que estranhamente não escolheu a primeira indicação da lista tríplice enviada pela universidade? Quantas questões sem resposta. Porque a imprensa não cumpre o seu papel e não ajuda a esclarecer o que realmente ocorreu?
Porque não se indaga dos alunos o porque que eles não querem a PM no campus, porque professores apoiam seus alunos?
O fato de alunos serem surpreendidos fumando maconha e sua abordagem de forma truculenta foi o estopim de uma série de infinitas provocações sofridas pelos alunos, especialmente os ¨barbudos comunistas¨da FFLCH (estranhamente onde se concentram os alunos mais pobres e também porque em razão de seus cursos são os que mais desenvolvem o pensamento livre e crítico, e não os filhinhos de papai como a imprensa noticia). Se a abordagem aos rapazes tivesse sido normal e proporcional nada teria acontecido, mas não, os policiais fizeram do fato um acontecimento especial, que com a chamada de reforço policial e a presença de várias viaturas e policiais para conduzir 3 jovens que não ofereciam naquele momento nenhum risco a vida de quem que fosse, tudo culminando num confronto desnecessário entre estudantes e policiais e em um gasto de dinheiro público perfeitamente evitável.
Se a polícia não pode atender a todos, promovendo uma segurança efetiva, porque ao menos não prioriza suas ações? Porque não atua contra quem coloca em risco a integridade física de outrem? Criar uma confusão deste tamanho envolvendo um gasto de dinheiro absurdo, que poderia ter sido empregado para reforma de prédios da própria USP, inclusive o da FFLCH, não é atitude que se espere de uma polícia que está lidando com jovens estudantes. Demonstra claramente seu despreparo.
A imagem que fica na minha cabeça é a que foi mostrada exaustivamente pelos telejornais no dia do confronto entre estudantes e PMs, o que eu vi foi um jovem rapaz correndo atrás de uma viatura de polícia apontando-lhe brava e romanticamente um livro, isso mesmo, um livro, sugestivamente e simbolicamente VERMELHO.
Espero que se faça a real justiça e que se dê voz àqueles que neste momento estão mudos não porque não tenham o que dizer, mas por falta de quem os deixe falar.

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