OS CUPINS
Moro atualmente em uma casa muito antiga, não digo velha, mas antiga mesmo. Adoro o que é antigo, sinto no passado um porto seguro, uma saudade do que nunca vi, por isso mesmo, um porto seguro, um mundo ideário onde a realidade só toca no limite do que eu lhe permiti. O passado é o que não vivi, é um mundo que eu criei só para mim, por isso mesmo, pleno.
Portanto, gosto muito da minha casa antiga, com porão (onde se guardam sonhos que a gente visita de vez em quando, alguns pesadelos estão lá também), chão de assoalho de madeira que range quando se pisa, as vezes range até demais, paredes altas e muitas escadas. Mas ao lado deste nostálgico romantismo há também um teto de estuque que é o motivo da minha eterna preocupação, não pelo estuque em si, mas pelos seres que mansamente vão destruindo as madeiras que sustentam o teto: os cupins! São tão pequenos, mas fazem um estrago tão grande. Se não se tomar cuidado o estuque pode cair e até matar quem estiver em baixo. Morro de medo de cupins!
Percebi com o tempo que temos cupins que nos habitam e que trabalham silenciosamente. são sentimentos que destroem outros sentimentos e fazem isso sem que percebamos, eles vão roendo e roendo por dentro, mas não tocam na aparência externa, o que vai disfarçando sua ação, até que um dia aquela casquinha tão frágil rui e ai vemos que dentro dela já não há mais nada, só um vazio e que trouxe consigo uma queda de outros sentimentos que sem apoio são destruídos também.
Os cupins são assim, terríveis. Morro de medo deles.
São Paulo, 11 de março de 2012.